Jair Bolsonaro

Jair Bolsonaro
Jair Bolsonaro em abril de 2019, antes de pronunciamento em rede nacional[1][nota 1]
38Presidente do Brasil
Período 1º de janeiro de 2019
a atualidade
Vice-presidente Hamilton Mourão
Antecessor Michel Temer
Deputado federal pelo Rio de Janeiro
Período 1º de fevereiro de 1991
a 1º de janeiro de 2019
Vereador do Rio de Janeiro
Período 1º de janeiro de 1989
a 1º de fevereiro de 1991
Dados pessoais
Nome completo Jair Messias Bolsonaro
Nascimento 21 de março de 1955 (66 anos)
Glicério, SP
Nacionalidade brasileiro
Progenitores Mãe: Olinda Bonturi[2]
Pai: Geraldo Bolsonaro[2]
Alma mater Academia Militar das Agulhas Negras
Cônjuge Rogéria Nantes (c. 1978; div. 1997)
Ana Cristina Valle (c. 1997; div. 2007)
Michelle Bolsonaro (c. 2007)
Filhos Flávio · Carlos · Eduardo · Renan · Laura
Partido sem partido (2019–presente)
Religião Católico romano
Profissão Militar e político
Assinatura Assinatura de Jair Bolsonaro
Website bolsonaro.com.br
Serviço militar
Lealdade Exército Brasileiro[3]
Anos de serviço 1973–1988[4][5]
Graduação Capitão.png Capitão
Unidade
  • 21º Grupo de Artilharia de Campanha
  • 9.º Grupo de Artilharia de Campanha
  • 8º Grupo de Artilharia de Campanha Paraquedista
Condecorações Medalha do Pacificador com Palma (por "Ato de Bravura" em 1978)[6]

Jair Messias Bolsonaro (Glicério,[7][8][nota 2] 21 de março de 1955) é um capitão reformado, político e atual presidente do Brasil. Foi deputado federal por sete mandatos entre 1991 e 2018, sendo eleito através de diferentes partidos ao longo de sua carreira.[3] Elegeu-se à presidência pelo Partido Social Liberal (PSL), ao qual foi filiado até novembro de 2019. Três de seus filhos também são políticos: Carlos Bolsonaro (vereador do Rio de Janeiro pelo Partido Social Cristão), Flávio Bolsonaro (senador fluminense pelo PSL e comandante da legenda no estado) e Eduardo Bolsonaro (deputado federal por São Paulo, também pelo PSL).[10][11]

Formou-se na Academia Militar das Agulhas Negras em 1977 e serviu nos grupos de artilharia de campanha e paraquedismo do Exército Brasileiro. Tornou-se conhecido do público em 1986, quando escreveu um artigo para a revista Veja no qual criticava salários de oficiais militares. Por causa disso, foi preso por quinze dias, apesar de ter recebido cartas de apoio de colegas do exército. Foi absolvido dois anos depois.[12]

Bolsonaro ingressou na reserva em 1988, com o posto de capitão, após ser eleito para a Câmara Municipal do Rio de Janeiro naquele ano. Foi eleito vereador pelo Partido Democrata Cristão (PDC), partido que seria extinto em 1993. Em 1990, candidatou-se a deputado federal pelo estado do Rio de Janeiro. Foi o candidato mais votado, com apoio de 6% do eleitorado fluminense (464 mil votos),[13] sendo reeleito por seis vezes. Durante seus 27 anos na Câmara dos Deputados, ficou conhecido por ser uma personalidade controversa,[14] por conta de declarações classificadas como discurso de ódio[15] e de suas visões políticas geralmente caracterizadas como populistas[16] e de extrema-direita,[17] que incluem a simpatia pela ditadura militar brasileira[18][19][20][21][22] e a defesa das práticas de tortura por aquele regime.[23][24][25] Em março de 2015, deixou de ser militar da reserva e passou a ser capitão reformado do exército.[26]

Bolsonaro foi anunciado como pré-candidato à Presidência do Brasil em março de 2016 pelo PSC.[27] Somente em janeiro de 2018, no entanto, anunciou sua filiação ao PSL, o nono partido político de sua carreira desde que foi eleito vereador em 1988.[28][29][30][31] Sua campanha presidencial foi lançada em agosto de 2018, com o general reformado Hamilton Mourão como seu vice na chapa. Ele se apresentou como um candidato conservador,[32] defensor de valores familiares e de políticas mais rigorosas na área da segurança pública.[33] Sofreu um atentado durante ato de campanha no dia 6 de setembro, recebendo um golpe de faca no abdômen. Em 7 de outubro, Bolsonaro ficou em primeiro lugar no primeiro turno das eleições presidenciais de 2018, com o candidato Fernando Haddad, do Partido dos Trabalhadores (PT), em segundo.[34] Foi eleito Presidente da República no segundo turno, em 28 de outubro, com 55,13% dos votos válidos.[35]

Infância

Olinda e Geraldo Bolsonaro com seu filho Jair, em 1974, na Academia Militar das Agulhas Negras.

Segundo relatos familiares, Jair Bolsonaro nasceu em Glicério,[7] um pequeno município no noroeste do estado de São Paulo, e foi registrado dez meses depois, no dia 1º de fevereiro de 1956, na cidade de Campinas,[8] onde morava grande parte de sua família de imigrantes italianos e alemães.[36] Em seu registro de nascimento, todavia, sua naturalidade consta como sendo Campinas.[9][36][37][38] O nome Jair foi escolhido após sugestão de um vizinho, em homenagem a Jair Rosa Pinto, meia-esquerda da Seleção Brasileira de Futebol que fazia aniversário naquele dia e jogava no Palmeiras, time pelo qual Percy Geraldo Bolsonaro, o pai, torcia. Inicialmente, chamar-se-ia apenas Messias Bolsonaro porque sua mãe, Olinda Bonturi, após uma gravidez complicada, atribuía a Deus o milagre do nascimento do filho.[39]

Em sua infância, morou em diversas cidades do estado de São Paulo. Nos primeiros anos de vida, sua família mudou-se para Ribeira. Após alguns anos, em 1964, a família mudou-se para Jundiaí nos bairros de Vianelo e Vila Progresso. Em 1965, mudaram-se para Sete Barras. Finalmente, em 1966, mudaram-se para Eldorado, no Vale do Ribeira, onde Jair cresceu junto com seus cinco irmãos.[40][41] Completou o ensino médio no Científico Estadual de Eldorado Paulista.[42]

Carreira militar

Bolsonaro se interessou pelo Exército aos 15 anos, quando ele e amigos forneceram dicas para os militares sobre possíveis esconderijos de Carlos Lamarca, que havia montado um campo em Vale do Ribeira para treinar guerrilheiros contra a ditadura militar.[43][44]

Aos 17 anos, Bolsonaro entrou para a Escola Preparatória de Cadetes do Exército (EsPCEx).[45] Porém, após refletir, chegou à conclusão de que deveria ter prestado concurso para a Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN). Então, no final de 1973, após alguns meses na EsPCEx, prestou o concurso e foi aprovado.[46] Formou-se em 1977.[47]

No final de seu último ano de academia, integrou a Brigada de Infantaria Paraquedista, onde se especializou em paraquedismo. Após concluir o curso, foi servir como Aspirante a Oficial no 21º Grupo de Artilharia de Campanha (GAC) em São Cristóvão, bairro do Rio de Janeiro. Depois, serviu no 9.º GAC em Nioaque, Mato Grosso do Sul, de 1979 a 1981.[48] Nesse último ano, nasce seu primeiro filho, Flávio. No ano seguinte, 1982, cursou a Escola de Educação Física do Exército (EsEFEx) e nasce seu segundo filho, Carlos.[49]

Jair Bolsonaro em 1986, no mesmo ano em que foi preso, quando servia no 8º Grupo de Artilharia de Campanha Paraquedista

Após ter se formado na escola, foi servir no 8º Grupo de Artilharia de Campanha Paraquedista em Deodoro, bairro do Rio de Janeiro. Foi um dos tenentes responsáveis pela avaliação física dos soldados que concorriam para o curso de paraquedismo.[50] Em 1987, cursou a Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais (EsAO).[51]

Documentos produzidos pelo Exército Brasileiro na década de 1980 mostram que os superiores de Bolsonaro o avaliaram como dono de uma "excessiva ambição em realizar-se financeira e economicamente".[52] Segundo o superior de Bolsonaro na época, o coronel Carlos Alfredo Pellegrino, Bolsonaro "tinha permanentemente a intenção de liderar os oficiais subalternos, no que foi sempre repelido, tanto em razão do tratamento agressivo dispensado a seus camaradas, como pela falta de lógica, racionalidade e equilíbrio na apresentação de seus argumentos".[52]

Prisão

Em 1986, quando já servia como capitão, no 8º Grupo de Artilharia de Campanha Paraquedista, Bolsonaro foi preso por quinze dias após escrever, na seção "Ponto de Vista" da revista Veja de 3 de setembro de 1986, um artigo intitulado "O salário está baixo".[53] Para Bolsonaro, o desligamento de dezenas de cadetes da AMAN se devia aos baixos salários pagos à categoria de uma forma geral, e não a desvios de conduta, como queria deixar transparecer a cúpula do Exército. A atitude de seus superiores levou à reação de oficiais da ativa e da reserva, inclusive do General Newton Cruz, ex-chefe da agência central do Serviço Nacional de Informações (SNI) no governo João Figueiredo. Bolsonaro recebeu cerca de 150 telegramas de solidariedade das mais variadas regiões do país, além do apoio de oficiais do Instituto Militar de Engenharia (IME) e de esposas de oficiais, que realizaram manifestação em frente ao complexo militar da Praia Vermelha, no Rio de Janeiro.[51] Foi absolvido pelo Superior Tribunal Militar (STM) dois anos depois.[52]

Operação Beco Sem Saída

Bolsonaro e o esquema, de próprio punho, do plano de ataque à Adutora do Guandu, integrante da rede de abastecimento de água do Rio de Janeiro[54]

Em 27 de outubro de 1987, Jair Bolsonaro informou à repórter Cássia Maria, da revista Veja, sobre a operação "Beco Sem Saída". Na época, Bolsonaro apoiava a melhoria do soldo e era contra a prisão do capitão Saldon Pereira Filho.[55][56] A operação teria como objetivo explodir bombas de baixa potência em banheiros da Vila Militar, da Academia Militar das Agulhas Negras, em Resende, e em alguns outros quartéis militares com o objetivo de protestar contra o baixo salário que os militares recebiam na época.[54][56]

Bolsonaro teria desenhado o croqui de onde a bomba seria colocada na Adutora do Guandu, que abastece de água ao município do Rio de Janeiro. A revista entregou o material ao então Ministro do Exército e este, após quatro meses de investigação, concluiu que a reportagem estava correta e que os capitães haviam mentido.[54][56] Por unanimidade, o Conselho de Justificação Militar (CJM) considerou, em 19 de abril de 1988, que Bolsonaro era culpado e que fosse "declarada sua incompatibilidade para o oficialato e consequente perda do posto e patente, nos termos do artigo 16, inciso I da lei nº 5836/72". Em sua defesa, Bolsonaro alegou na época que a revista Veja tinha publicado acusações fraudulentas para vender mais com artigos sensacionalistas.[56]

O caso foi entregue ao Superior Tribunal Militar (STM). O julgamento foi realizado em junho de 1988 e o tribunal acolheu a tese da defesa de Bolsonaro e do também capitão Fábio Passos da Silva, segundo a qual as provas documentais — cujo laudo pericial fora feito pela Polícia do Exército — eram insuficientes por não permitirem comparações caligráficas, uma vez que fora usada letra de imprensa. O STM absolveu os dois oficiais, que assim foram mantidos nos quadros do Exército. Ainda em 1988, Bolsonaro foi para a reserva, com a patente de capitão e, no mesmo ano, iniciou sua carreira política, concorrendo a vereador do Rio de Janeiro. O laudo da Polícia do Exército, no entanto, seria mais tarde corroborado pela Polícia Federal, que confirmou a caligrafia de Bolsonaro.[15][51][56][57]

Carreira política

Vereador do Rio de Janeiro (1989–1990)

Bolsonaro em março de 1990, durante seu mandato como vereador. Em outubro do mesmo ano, seria eleito deputado federal

Em 1988, entrou na vida pública elegendo-se vereador da cidade do Rio de Janeiro pelo Partido Democrata Cristão. Segundo biografia feita por seu filho Flávio, Bolsonaro "foi candidato a vereador porque calhou de ser a única opção que possuía no momento para evitar que fosse vítima de perseguição por parte de alguns superiores. Seu ingresso na política aconteceu por acaso, pois sua vontade era dar continuidade na carreira militar."[58] Assumiu seu mandato em 1989, ficando apenas dois anos na Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Durante seu mandato, apresentou sete projetos de lei, um dos quais autorizava o transporte gratuito de militares em ônibus urbanos.[59] Seu mandato de vereador foi usado principalmente para dar visibilidade às causas militares.[60]

Bolsonaro mostrou-se um vereador conservador, discreto e pouco participativo. Em um dos poucos discursos que fez em plenário, reclamou de uma nota publicada pelo jornal O Dia, que o acusava de registrar o discurso de colegas vereadores com ataques às Forças Armadas para enviar aos militares.[59] Em outras ocasiões, Bolsonaro defendeu o controle da natalidade: "não adianta vir com paliativo, mostrar folhetinhos para a população carente que é analfabeta", disse. Também julgou ineficaz a distribuição de camisinhas a moradores de favelas, pois "a molecada vai brincar de bexiga", e disse que a contenção da explosão demográfica deve ocorrer "em cima da classe mais humilde". As palavras do vereador foram transcritas no Diário da Câmara Municipal, pois na época a Casa não tinha um canal de televisão.[61]

Deputado federal (1991–2019)

Nas eleições de 1990, elegeu-se deputado federal, também pelo PDC.[62] Viriam em seguida outros seis mandatos sucessivos. Além do PDC, foi filiado a outros oito partidos ao longo de sua carreira política: PPR (1993-95), PPB (1995-2003), PTB (2003-2005), PFL (2005), PP (2005-2016), PSC (2016-2017)[28] e o PSL (2018-2019),[31] Em 2017, declarou que já havia pensado em se filiar ao Prona, também chegando a conversar sobre sua filiação ao PEN, atual Patriota, mas nada se concretizou.[63]

Bolsonaro, em 2016, durante sessão deliberativa ordinária no plenário do Senado

Enquanto deputado, Bolsonaro concorreu também à presidência da Câmara. Em fevereiro de 2017, Bolsonaro concorreu pela terceira vez ao cargo de presidente da Câmara dos Deputados, obtendo apenas quatro votos. Ele já havia disputado o mesmo cargo em 2005 e 2011, tendo sido derrotado em todas essas tentativas.[64] Bolsonaro desistiu de tentar uma oitava reeleição para o cargo de deputado federal a fim de disputar a Presidência da República em 2018.

Na Câmara dos Deputados, Bolsonaro foi titular da Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional e da Comissão de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado,[65] e suplente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias.[66]

Segundo levantamento do jornal O Estado de S. Paulo, em 26 anos de atividades no Congresso, Bolsonaro apresentou 171 projetos de lei, de lei complementar, de decreto de legislativo e propostas de emenda à Constituição (PECs),[67][68] sendo relator de 73 deles.[69] Segundo a Agência Lupa — que dá o número total de projetos como 172 — 162 destes foram Projetos de Lei (PL), um foi Projeto de Lei Complementar (PLC) e cinco foram Propostas de Emenda à Constituição (PEC); há 470 outras proposições apresentadas pelo deputado, mas estas não são projetos de lei: trata-se de emendas a processos em comissões, indicações de autoridades para que prestem informações em casos analisados pela Câmara, e mensagens e manifestações em plenário.[70]

Bolsonaro conseguiu aprovar dois projetos de lei e uma emenda: uma PEC que prevê emissão de recibos junto ao voto nas urnas eletrônicas; uma proposta que estende o benefício de isenção do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para bens de informática e outra que autoriza o uso da fosfoetanolamina,[67] substância que ficou conhecida no Brasil como "pílula do câncer" e que testes demonstraram não ter qualquer efeito contra a doença.[71][72] Bolsonaro justificou a aprovação de uma única emenda alegando que não recebe apoio suficiente dos demais congressistas por sofrer "discriminação" por possuir ideais direitistas.[73]

Eleições para deputado federal disputadas pelo RJ
Eleição de Partido Votos Posição entre os
mais votados
Resultado
Total %
1990 PDC 67 041 N/A N/A Eleito[62]
1994 PPR 111 927 2,5% Eleito[74]
1998 PPB 102 893 1,4% 10º Eleito[75]
2002 88 945 1,1% 21º[76] Eleito[77]
2006 PP 99 700 1,2% 14º[78] Eleito[79]
2010 120 646 1,5% 11º[80] Eleito[81]
2014 464 572 6,1% [80] Eleito[82]

No caso das urnas eleitorais, a emenda propõe a impressão de um comprovante, o qual é verificado pelo eleitor na impressora e, em seguida, depositado, pela própria máquina, em uma urna lacrada. Ele defende esse sistema para evitar fraudes na contagem de votos e por não existir "nenhum país no mundo" que use a tecnologia brasileira, insinuando que as urnas eletrônicas são vulneráveis.[83] Apesar do sistema ser testado periodicamente e nunca ter sido corrompido,[84][85] alguns especialistas questionam sua indefensabilidade.[86][87][88] De acordo com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a proposta geraria custos adicionais de cerca de 1,8 bilhão de reais aos cofres públicos.[89] Em junho de 2018, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu derrubar o voto impresso nas eleições de 2018 por entender que isto poderia gerar um risco de quebra de sigilo e da liberdade de escolha, pela possibilidade de mesários precisarem intervir em caso de falha da impressão.[90]

Bolsonaro foi o autor de uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que prevê que o Sistema Único de Saúde (SUS) realize cirurgias de laqueadura e vasectomia em maiores de 21 anos que desejarem realizar o procedimento. Ele argumentou que muitas famílias pobres não têm dinheiro para fazer cirurgias como essas e que teriam dificuldades em realizar seu planejamento familiar por esse motivo.[91] Essa pauta, porém, já era defendida por ele desde o início dos anos 90, quando era vereador.[92]

Bolsonaro também apresentou a PL 1411/2011, que descaracteriza como crime a recusa, em templos religiosos, de aceitar ou efetuar cerimônias ou pessoas em desacordo com suas crenças e liturgias.[93]

Candidatura à Presidência da República (2018)

Bolsonaro comemorando o resultado da convenção que o escolheu como sendo candidato à presidência pelo PSL

Jair Bolsonaro candidatou-se à presidência da República Federativa do Brasil pelo Partido Social Liberal nas eleições presidenciais de 2018 com General Mourão (do PRTB) como vice, na coligação "Brasil acima de tudo, Deus acima de todos".[38] Sua candidatura, que tinha duas contestações, foi deferida por unanimidade pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).[94]

Jair Bolsonaro foi o primeiro candidato à presidência a alcançar o valor de um milhão de reais em doações para campanha eleitoral por meio do financiamento coletivo. O valor foi alcançado após 59 dias do início da campanha de arrecadação, em 5 de julho, arrecadando-se em média 17 mil reais por dia.[95][96] Em 23 de agosto, iniciou sua campanha, gozando de forte proteção policial e usando colete à prova de balas. O então presidente do PSL, Gustavo Bebianno declarou que Bolsonaro estava em nível máximo de risco.[97]

Atentado

Ver artigo principal: Atentado contra Jair Bolsonaro
Bolsonaro durante o atentado em Juiz de Fora, Minas Gerais.

No dia 6 de setembro de 2018, Bolsonaro foi vítima de um ataque a faca durante uma campanha em Juiz de Fora, Minas Gerais. Foi atingido no abdômen e necessitou passar por um procedimento de laparotomia exploratória na Santa Casa de Misericórdia de Juiz de Fora.[98][99][100] Adélio Bispo de Oliveira, identificado como o autor do crime e posteriormente preso, declarou, no boletim de ocorrência, que o fez "a mando de Deus".[101][102] Adélio foi filiado ao PSOL entre 2007 e 2014; o partido emitiu uma nota classificando o atentado como "um grave atentado à normalidade democrática e ao processo eleitoral".[103][104][105] Após o atentado, ele fez duas cirurgias e recebeu alta no final de setembro. O esfaqueador de Bolsonaro foi preso, julgado e absolvido.[106] Bolsonaro disse que recorreria da decisão, entretanto a sentença transitou em julgado.[107]

No dia do atentado os demais candidatos à presidência Álvaro Dias, Ciro Gomes, Geraldo Alckmin, Guilherme Boulos, Henrique Meirelles, João Amoêdo, Marina Silva, Cabo Daciolo, João Goulart Filho e Vera Lucia repudiaram o ataque através de redes sociais. O presidente da República, Michel Temer, classificou-o como "intolerável".[108] A ex-presidente Dilma Rousseff referiu-se ao ataque como lamentável e relacionou a motivação do crime com opiniões defendidas pelo candidato.[109]

Manifestações

Ver artigo principal: Movimento Ele Não

Em 29 de setembro de 2018,[110] usando a hashtag #EleNão,[111] um movimento iniciado nas redes sociais por mulheres contrárias às propostas do candidato reuniu expressivas manifestações de rua durante a campanha presidencial de 2018.[112] As manifestações contaram com cerca de 500 mil pessoas, segundo os organizadores do evento,[113][114] e aconteceram em mais de 160 cidades[115] de todos os estados do país e também em cidades como Nova Iorque, Barcelona, Berlim, Lisboa[116] e Paris.[117][118][119]

No dia 30 de setembro, foram organizados atos de apoio ao candidato. Em Brasília, a campanha organizou uma carreata que contou com 25 mil carros, de acordo com a Polícia Militar. Em São Paulo, um ato ocupou quatro quarteirões da avenida Paulista, não tendo sido divulgados os números oficiais de manifestantes. De acordo com os organizadores do evento, o número teria chegado a 1,8 milhão, estimativa esta considerada não realista, já que em uma manifestação anterior pelo impeachment de Dilma Rousseff, que ocupou toda a avenida, o instituto Datafolha estimou uma aglomeração de quinhentas mil pessoas.[120] Em 21 de outubro os movimentos Brasil Livre e Vem Pra Rua também organizaram atos contra o Partido do Trabalhadores (PT) em todo o Brasil.[121][122]

Desempenho eleitoral

Desempenho de Bolsonaro na
eleição presidencial de 2018
Turno Partido Votos Resultado Ref.
Total %
1.º PSL 49 276 990 46,03% 2º turno [123]
2.º 57 797 847 55,13% Eleito [124]
Hélio Lopes e Bolsonaro durante a comemoração pela vitória nas eleições presidenciais de 2018.

Obteve 49 276 990 votos no primeiro turno da eleição, que ocorreu dia 7 de outubro, o que corresponde a 46,03% dos votos válidos, sendo o mais votado do turno.[123] Como nenhum candidato atingiu 50% dos votos válidos, o Tribunal Superior Eleitoral convocou o segundo turno da eleição, disputado entre Jair Bolsonaro e Fernando Haddad do Partido dos Trabalhadores (PT).[125][126] Jair Bolsonaro venceu em 16 estados e no Distrito Federal, ultrapassando 50% dos votos em 13 estados.[127]

No dia 28 de outubro sucedeu-se o segundo turno da eleição, e Jair Bolsonaro confirmou o resultado do primeiro turno, obtendo 57 797 847 de votos (55,13% dos votos válidos), elegendo-se assim com êxito o 38º presidente da República no Brasil.[124][128] Bolsonaro repetiu a vitória em 15 estados onde ganhara no primeiro turno e também no Distrito Federal, mas não conseguiu manter a vitória no Tocantins.[129] Bolsonaro interrompeu o ciclo de quatro vitórias consecutivas do Partido dos Trabalhadores, que se repetia desde 2002, quanto Luiz Inácio Lula da Silva venceu a eleição presidencial daquele ano.[130] Bolsonaro é o décimo militar que chega à presidência da República, o primeiro desde o princípio da Nova República.[131] É também o primeiro ítalo-brasileiro eleito à presidência da República de forma direta. Outros ítalo-brasileiros que ocuparam o cargo de presidente foram Ranieri Mazzilli e Itamar Franco, que foram presidentes interinos; e Emilio Garrastazu Medici, presidente eleito indiretamente durante a ditadura militar.[36]

Presidência da República (2019–presente)

Momento em que Michel Temer recebe Jair Bolsonaro na rampa do Palácio do Planalto, em Brasília, durante a posse presidencial.

Em 11 de outubro, dias antes de sua vitória nas urnas, Bolsonaro anunciou o congressista Onyx Lorenzoni (DEM) como o futuro chefe da Casa Civil em seu gabinete.[132]

Em 31 de outubro, já na condição de presidente-eleito, Bolsonaro anunciou o astronauta Marcos Pontes como o futuro Ministro de Ciência e Tecnologia. Além de Pontes, Bolsonaro já havia feito outras duas nomeações ministeriais: Paulo Guedes como Ministro da Economia e Augusto Heleno, general da reserva, como Ministro da Defesa.[133] Este último, porém, foi posteriormente nomeado para o Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, no dia 7 de novembro.[134]

No primeiro dia de novembro, Bolsonaro confirmou que o juiz Sergio Moro havia aceitado seu convite para servir como Ministro da Justiça e da Segurança Pública.[135] A decisão gerou reação adversa da imprensa internacional porque Moro havia condenado Luiz Inácio Lula da Silva, o principal adversário de Bolsonaro na eleição, por lavagem de dinheiro e corrupção.[136][137]

No dia 1º de janeiro de 2019, Jair Bolsonaro e Hamilton Mourão tomaram posse como presidente e vice-presidente da República em cerimônia no Congresso Nacional. Após o evento, Bolsonaro recebeu a faixa presidencial das mãos do ex-presidente Michel Temer e fez um discurso no parlatório do Palácio do Planalto.[138][139] A posse de Bolsonaro teve o maior reforço de segurança na história das posses, contando com cerca de seis mil agentes e 2,6 mil policiais militares.[140]

Desde o começo, sua administração envolveu-se em uma série de controvérsias. Bolsonaro trocou nove dos ministros que havia indicado originalmente.[141] Bolsonaro desfiliou-se do PSL em 19 de novembro de 2019,[142] partido em que estava desde março de 2018, depois de divergências com o presidente do partido, Luciano Bivar.[143][144] Foi a primeira vez desde a redemocratização do país, que um presidente da República ficou sem legenda partidária durante o exercício do mandato.[145] Em seguida, anunciou o projeto de criação de um novo partido, a Aliança pelo Brasil (ALIANÇA), o que não foi concretizado.[146] Em seu segundo ano de mandato, Bolsonaro minimizou os efeitos da pandemia de COVID-19 no Brasil,[147][148] entrou em conflito com governadores, demitiu o médico Luiz Henrique Mandetta do Ministério da Saúde[149] e causou a renúncia de Sergio Moro do Ministério da Justiça após exonerar Maurício Valeixo do cargo de diretor-geral da Polícia Federal.[150]

Relações internacionais

Bolsonaro com Donald Trump na Casa Branca, em 19 de março de 2019.
Bolsonaro e o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, durante encontro em 31 de março de 2019.

Durante a campanha presidencial de 2018, Bolsonaro disse que faria mudanças consideráveis nas relações internacionais do Brasil, dizendo que "o Itamaraty precisa estar a serviço dos valores que sempre estiveram associados ao povo brasileiro". Ele também disse que o país deveria parar de "louvar ditadores" e "atacar democracias", como Estados Unidos, Israel e Itália.[151] No início de 2018, ele afirmou que sua "viagem aos cinco países democráticos dos Estados Unidos, Israel, Japão, Coreia do Sul e Taiwan mostrou quem seremos ser e que gostaríamos de nos unir a pessoas boas". Bolsonaro mostrou desconfiança em relação à China durante toda a campanha presidencial, alegando que o país asiático "[quer] comprar o Brasil".[152][153][154][155] Apesar disto, ele afirmou que deseja continuar a negociar com os chineses, mas também disse que o Brasil deveria "fazer melhores acordos [econômicos]" com outros países, sem nenhuma "agenda ideológica" por trás disto.[156] Bolsonaro disse que sua primeira viagem internacional como presidente seria para Israel.[157] Ele também afirmou que o Estado da Palestina "não é um país, então não deveria haver embaixada [brasileira]" e acrescentou que "não negocia com terroristas".[157]

Bolsonaro também elogiou o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e sua política externa.[151] Eduardo, filho de Bolsonaro, indicou que o Brasil deveria se distanciar do Irã, romper relações com o governo de Nicolás Maduro na Venezuela e realocar a embaixada do Brasil em Israel de Tel Aviv para Jerusalém (ver Posições sobre Jerusalém).[158] Bolsonaro é considerado o candidato mais pró-americano no Brasil desde a década de 1980. Os membros do PSL disseram que ele iria melhorar dramaticamente as relações entre os Estados Unidos e o Brasil.[20] Durante uma manifestação de campanha em outubro de 2017 em Miami, na Flórida, ele saudou a bandeira estadunidense, enquanto gritava "USA! USA!" para uma grande multidão.[159] O assessor de segurança nacional dos Estados Unidos, John Bolton, elogiou Bolsonaro como um parceiro de "mentalidade semelhante" e disse que sua vitória era um "sinal positivo" para a América Latina.[160]

No nível regional, ele elogiou o presidente argentino, Mauricio Macri, por encerrar o regime de 12 anos de Néstor e Cristina Fernández de Kirchner, que ele considerava semelhante a Lula e Rousseff. Embora ele não tenha planos de deixar o Mercosul, ele criticou o bloco por considerar que ele priorizava questões ideológicas em vez de questões econômicas.[161] Um ferrenho anticomunista, Bolsonaro condenou o ex-líder cubano Fidel Castro e o atual regime naquela ilha.[162][163]

Bolsonaro elogiou o primeiro-ministro britânico Winston Churchill, dizendo que aprendeu com ele: "Patriotismo, amor pela pátria, respeito à sua bandeira - algo que se perdeu nos últimos anos aqui no Brasil ... e governando pelo exemplo, especialmente naquele momento difícil da Segunda Guerra Mundial."[162]

Meio ambiente

Jair Bolsonaro durante a cerimônia de abertura do rodeio da 64ª Festa do Peão de Barretos, em São Paulo.

O presidente chegou a cogitar a possibilidade de extinguir o Ministério do Meio Ambiente, ideia que ganhou força em novembro durante o governo de transição, mas recuou na decisão. No entanto, o departamento de Educação Ambiental do Ministério do Meio Ambiente foi incorporado pela Secretaria de Ecoturismo, enquanto que o Serviço Florestal Brasileiro foi transferido do Ministério do Meio Ambiente para a Agricultura.[164]

Em abril de 2019, Bolsonaro foi selecionado pela revista Time como uma das cem pessoas mais influentes do mundo naquele ano. Em síntese, a revista descreve Bolsonaro como um personagem complexo, que por um lado representaria uma quebra numa sequência de uma década de corrupção e a "melhor chance em uma geração" para aprovar reformas econômicas que podem amansar a dívida crescente. Por outro lado, a revista ressalta o caráter controverso de Bolsonaro, descrevendo-o como símbolo de "masculinidade tóxica" e de um "ultraconservadorismo homofóbico", que poderia ainda reverter o progresso brasileiro quanto às mudanças climáticas.[165]

Durante o mês de agosto de 2019, os incêndios na Amazônia tornaram-se foco de intensas críticas às políticas de Bolsonaro para a área de floresta tropical.[166] O Brasil registrou mais de 72.000 incêndios em 2019, um aumento de 84% em relação ao mesmo período de 2018.[167] Em cinco dias, em agosto, houve 7.746 incêndios.[168] A preocupação levou Angela Merkel a apoiar o pedido de Emmanuel Macron para colocar os incêndios na Amazônia na agenda da cúpula do G7, depois que o presidente francês disse que a situação representava uma crise internacional.[169] Em resposta, o presidente Jair Bolsonaro - que se autodenominou, ironicamente, “Capitão Motosserra”[170] - acusou Macron de ter uma "mentalidade colonialista" e disse-lhe para ficar de fora dos negócios brasileiros.[171] "Não podemos aceitar que um presidente, Macron, atire ataques infundados e gratuitos na Amazônia, nem que ele disfarce suas intenções por trás da idéia de uma 'aliança' de países do G-7 para 'salvar' a Amazônia, como se nós fôssemos colônias ou terras de ninguém ”.[172] Depois disso, o governo de Bolsonaro lançou uma campanha global de relações públicas para tentar convencer o mundo de que tudo está sob controle.[173] Bolsonaro disse que "no meu entender pode ter sido potencializada por ONGs, porque eles perderam grana, qual é a intenção? Trazer problemas para o Brasil[174] salientando que Leonardo DiCaprio deu o dinheiro para queimar a Amazônia.[175]

Política cultural

Pronunciamento onde Roberto Alvim, ex-secretário especial da Cultura, parafraseou um discurso de Joseph Goebbels ao som da ópera Lohengrin de Richard Wagner.[176].

O governo Bolsonaro extinguiu o Ministério da Cultura juntamente com os Ministérios do Esporte e do Desenvolvimento Social, sendo os três fundidos na estrutura do Ministério da Cidadania.[177] Após o anúncio, secretários da Cultura de dezoito estados lançaram um manifesto pedindo a manutenção do órgão.[178] Em 1º de janeiro de 2019, a partir da reforma administrativa do governo recém-empossado, o MinC foi oficialmente extinto pela medida provisória nº 870, publicada em edição especial do Diário Oficial da União.[179][180] Dentro do Ministério da Cidadania, foi criada a Secretaria de Cultura, que depois foi transferida para o Ministério do Turismo.[181]

No dia 19 de julho de 2019, Bolsonaro afirmou que, se o governo não puder impor algum "filtro" nas produções audiovisuais brasileiras, por meio da Agência Nacional do Cinema (Ancine), ele "extinguiria" a agência, o que só pode acontecer com aprovação do Congresso.[182] Bolsonaro afirmou ainda que pretendia transferir a sede da agência do Rio de Janeiro para Brasília e criticou o uso do dinheiro público para fazer "filmes pornográficos", como "o da Bruna Surfistinha",[183] além de ter defendido que o cinema nacional passe a falar dos "heróis brasileiros".[182] As declarações de Bolsonaro sobre a Ancine causaram repercussão negativa no setor. Duas das maiores revistas sobre cinema e entretenimento nos Estados Unidos, a The Hollywood Reporter e a Variety, dedicaram reportagens à ameaça de Bolsonaro de extinguir a agência e ao seu comentário sobre a necessidade de criação de "filtros" na seleção de filmes que o órgão apoia.[184] No dia 2 de agosto, no entanto, Bolsonaro declarou que poderia recuar na decisão de extinguir a Ancine, porque o "audiovisual emprega muita gente".[185] Em agosto, após o então diretor e presidente da Ancine, Christian de Castro, ter sido afastado do cargo por decisão judicial, Bolsonaro disse que queria um nome "terrivelmente evangélico" para substituí-lo.[186] Em 16 de janeiro de 2020, Roberto Alvim, o então secretário especial da Cultura, publicou um vídeo nas redes sociais em que parafraseia trechos de um discurso feito a diretores de teatro em 1933 por Joseph Goebbels, ministro da Propaganda da Alemanha Nazista.[187] Além disso, durante o vídeo em questão, a música de fundo era a ópera Lohengrin, do compositor Richard Wagner, também associada ao nazismo.[176]

Postura diante da pandemia de COVID-19

Luiz Henrique Mandetta, ministro da Saúde, e Jair Bolsonaro na cerimônia de lançamento do programa Médicos pelo Brasil em agosto de 2019.
Bolsonaro (ao fundo) durante a cerimônia de nomeação de Nelson Teich como novo ministro da Saúde.
Jair Bolsonaro Expliquei para ele [Bolsonaro], inclusive de forma bem básica, que o coronavírus é um bichinho que entra pelo nariz, passa de uma mão para outra. Nem assim ele entendeu Jair Bolsonaro

Luiz Henrique Mandetta, em dezembro de 2020, quando o país havia atingido 180 mil mortos por COVID-19, [188][189]

Após participar de manifestações a favor de si próprio ocorridas no dia 15 de março de 2020 mesmo diante da pandemia de COVID-19, Bolsonaro disse que, apesar de preocupante, há um "superdimensionamento" e "histeria" em relação à situação do coronavírus. Ele foi criticado por várias autoridades pela atitude de quebrar o isolamento e ir às ruas, que foi chamada de "atentado à saúde pública" por Rodrigo Maia, presidente da Câmara dos Deputados, e de comportamento "inconsequente" por Davi Alcolumbre, presidente do Senado.[190]

No dia 18 de março, Bolsonaro respondeu às críticas ao dizer: "Eu como chefe do Executivo, o líder maior da nação brasileira, tenho que estar na frente, junto do meu povo. Não se surpreenda se você me ver, nos próximos dias, entrando no metrô lotado em São Paulo (SP), entrando numa barcaça na travessia Rio-Niterói em horário de pico; ou num ônibus em Belo Horizonte (MG). Longe de demagogia e de populismo. É uma demonstração de que eu estou do lado do povo, na alegria e na tristeza". Esta postura se evidenciou contrária às recomendações do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, que sempre defendeu o isolamento social para evitar o rápido crescimento de casos de infecção pelo vírus.[191]

Nos dias 17 e 18 de março, ocorreram panelaços contra Bolsonaro em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Belo Horizonte, Brasília, Fortaleza, Salvador, Porto Alegre, Natal, Florianópolis e Curitiba, entre outras, por conta da postura do presidente brasileiro em relação à pandemia. Houve também, em número bem menor, manifestações favoráveis a Bolsonaro.[192] O ato se repetiu entre os dias 19 e 21 de março. Em pronunciamento no dia 19 de março, disse que os atos fazem parte da "democracia" e que não será uma "gripezinha" que irá derrubá-lo.[193][194] Segundo uma pesquisa da consultoria Atlas Político, 64% dos brasileiros rejeitam a maneira como o governo está lidando com a crise perante a pandemia do novo coronavírus.[195]

Em julho, depois de febre, dores musculares e mal-estar, Bolsonaro testou positivo para coronavírus. No entanto, reportou que sua febre haveria diminuído, atribuindo a melhora à hidroxicloroquina.[196] No mesmo mês, exibiu caixa de cloroquina para emas que viviam no Palácio do Alvorada,[197] bem como passeou de motocicleta sem utilizar máscara, conversando com garis, enquanto estava contaminado.[198] Pela sua postura diante do enfrentamento da doença, recebeu junto com outros oito mandatários o Prêmio IgNobel de Ensino de Medicina de 2020. O IgNobel é um prêmio anual concedido em caráter humorístico, a autores de experimentos, descobertas e estudos inusitados.[199]

Em dezembro, Bolsonaro, criticando o contrato para aquisição da vacina da Pfizer, afirmou que se a vacina transformasse pessoas em crocodilos ou mulheres barbadas, a empresa não teria nenhuma responsabilidade.[200][201][202][203] De acordo com o New York Post, a declaração "cheia de palavrões contra a vacina COVID-19"[204], "chocou até mesmo seus partidários mais leais".[200]

A empresa se isentou de responsabilidade em caso de efeitos colaterais da vacina - que Bolsonaro disse retoricamente poderia transformar alguém em um crocodilo e eles não seriam responsáveis. "Lá no contrato da Pfizer, está muito claro que nós (Pfizer) não somos responsáveis por nenhum efeito colateral. Se você se tornar um crocodilo, o problema é seu ... E o que é pior, adulterar o sistema imunológico das pessoas."
— Bolsonaro, em discurso em Porto Seguro.[200][204]

A fala do presidente[205] ganhou repercussão e se tornou alvo de piada pelo contador de pessoas que viraram jacaré, jacare-tracker,[206] ao tomar a vacina.[207]

O militar Eduardo Pazuello foi o terceiro Ministro da Saúde desde o início da pandemia de Covid-19. Ele autorizou o uso da cloroquina e hidroxicloroquina para o tratamento da doença, mesmo sem evidências científicas de que isso funcione.[208]

Em outubro de 2020, após o governador João Doria anunciar uma parceria do Instituto Butantã com a empresa chinesa Sinovac para a produção da Coronavac, uma vacina contra a COVID-19, Bolsonaro obrigou o ministro Eduardo Pazuello a cancelar, no âmbito do governo federal, a compra da vacina.[209] Bolsonaro criticou a Coronavac reiteradas vezes,[210] questionando sua eficácia[211] e sua origem chinesa,[212] assim como comemorando quando os testes foram suspensos por um breve período em decorrência do suicídio de um dos participantes, afirmando: "Mais uma que Jair Bolsonaro ganha."[213] Doria foi um crítico da postura de Bolsonaro diante da pandemia e ambos travaram uma "guerra das vacinas."[214] Em agosto de 2020, Bolsonaro editou uma Medida Provisória (MP) que previu a destinação de dois bilhões de reais para a produção de uma vacina contra a COVID-19 em uma parceria da Fiocruz com a farmacêutica AstraZeneca e a Universidade de Oxford.[215] Em dezembro, Bolsonaro editou outra MP que estipulou a abertura de crédito de vinte bilhões de reais para a compra de vacinas.[216]

Em janeiro de 2021, Bolsonaro anunciou que seu governo compraria doses da Coronavac, a despeito de sua intensa campanha contrária ao imunizante.[217] A Agência Nacional de Vigilância Sanitária aprovou a AZD1222 e a Coronavac em 17 de janeiro, no mesmo dia em que foi iniciada a vacinação no Brasil, em uma cerimônia realizada pelo governo de São Paulo.[218] A chegada da vacina da Oxford/AstraZeneca atrasou e,[219] em 18 de janeiro, Bolsonaro classificou a Coronavac como "a vacina do Brasil", revertendo seu rótulo anterior, de que era a "vacina chinesa do João Doria."[220] Neste contexto, o início da vacinação em São Paulo foi fracasso político significativo para Bolsonaro.[221] Em editorial, o Estado de S. Paulo observou que o "Brasil deve ser o único país onde a vacina foi derrota para o presidente."[222]

Após o colapso dos hospitais de Manaus em janeiro de 2021, Bolsonaro passou a ser a alvo de protestos da população.[223] Também se intensificaram, nas manifestações, os pedidos de impeachment, tanto da população,[224] quanto de políticos de direita e esquerda.[225] No mesmo mês, ressurgiu o "placar do impeachment", usado pelo Movimento Vem Pra Rua para consultar a opinião de políticos, que teve por consequência o Impeachment de Dilma Rousseff.[226] Devido a crise em Manaus, 119 deputados (da Rede, PSB, PT, PCdoB e PDT) protocolaram um pedido de impeachment contra o presidente.[226]

No final de fevereiro de 2021, o Brasil alcançou a marca de 250 mil mortos pela COVID-19. Poucos dias depois, com a pandemia registrando aumento acelerado de óbitos e o sistema de saúde de vários estados em colapso,[227][228] Bolsonaro declarou: "Chega de frescura, de mimimi. Vão ficar chorando até quando?" Para o presidente, não havia a necessidade de adoção de medidas de restrição já que "atividade essencial é toda aquela necessária para um chefe de família levar o pão para dentro de casa."[229]

Tentativa de golpe militar

Nota à Nação Brasileira por Augusto Heleno

Uma matéria da revista Piauí de agosto de 2020, afirmou que durante uma das piores crises entre o executivo e o judiciário, o presidente se reuniu a portas fechadas com Walter Braga Netto, Luiz Eduardo Ramos e Augusto Heleno. A reunião que teria acontecido no dia 22 de maio de 2020, teve como estopim o fato do ministro Celso de Mello, consultara a Procuradoria-Geral da República para saber se deveria ou não mandar apreender o celular do presidente e do seu filho, o então vereador Carlos Bolsonaro.[230]

Bolsonaro queria mandar tropas do exército para o Supremo Tribunal Federal porque os ministros, na sua opinião, estavam passando dos limites em suas decisões e diminuindo sua autoridade. Ao chegar no Supremo Tribunal Federal, a ideia era que os militares destituiriam os atuais onze ministros e os substitutos, militares ou civis, seriam então nomeados por Bolsonaro, ficando no cargo "até que aquilo esteja em ordem", segundo as palavras do presidente.[230]

Na tentativa de acalmar os ânimos do presidente da República, o ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional Augusto Heleno, que também é general da reserva do Exército Brasileiro, escreveu no mesmo dia em seu Twitter uma nota na qual citava os acontecimentos e fazia ameaças veladas ao Supremo Tribunal Federal.[230]

O Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República alerta as autoridades constituídas que tal atitude é uma evidente tentativa de comprometer a harmonia entre os poderes e poderá ter consequências imprevisíveis para a estabilidade nacional.
— Augusto Heleno [231]

A nota gerou grande repercussão e diversas críticas tanto por parte da sociedade civil como de entidades e congressistas.[232]

Posicionamentos

Bolsonaro homenageou Carlos Alberto Brilhante Ustra, o primeiro militar condenado pela justiça por prática de tortura durante a ditadura.[233]

Tornou-se conhecido por suas posições populistas,[16] por suas críticas à esquerda,[234][235] por classificar a tortura como prática legítima,[18][45] por posições contrárias aos direitos LGBT[236][237][238] e por várias outras declarações controversas, as quais lhe renderam cerca de 30 pedidos de cassação e três condenações judiciais.[18][239][240][241] Várias organizações internacionais acreditam que as suas tendências autoritárias[242] criam o risco de que a sociedade civil,[243] a imprensa,[244] os afro-brasileiros,[245][246] os indígenas,[247][248] e os críticos do governo enfrentarem danos irreparáveis.[249]

Apesar de seus posicionamentos serem amplamente classificados na extrema-direita do espectro político,[17] Bolsonaro rejeita tal categorização.[250] Inicialmente, Bolsonaro não via a si mesmo como representante do espectro ideológico de direita, chegando a ocupar a tribuna da Câmara dos Deputados, em 12 de março de 1999, para tecer elogios à deputada federal Luiza Erundina, filiada ao PSB e sempre reconhecida como um quadro de esquerda.[251] No período após as eleições de 2002, declarou em discursos na Câmara dos Deputados que votou em Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno, tendo apoiado no primeiro turno o candidato Ciro Gomes (então filiado ao PPS).[252][253]

Suas declarações já foram classificadas como discurso de ódio,[15] homofóbicas,[254][255][256] misóginas e sexistas,[255][256][257] racistas[255][256][258] e anti-refugiados.[259] Em agosto de 2018, a revista britânica The Economist definiu o deputado como "radical", "religioso nacionalista", "demagogo de direita", "apologista de ditadores"[260] e como uma "ameaça à democracia".[22]

Bolsonaro defende frequentemente a ditadura militar brasileira.[261] Durante discussão com manifestantes em dezembro de 2008, declarou que "o erro da ditadura foi torturar e não matar."[23] Ele foi criticado pelos meios de comunicação, por políticos e pelo Grupo Tortura Nunca Mais, sobretudo depois de ter afixado na porta de seu escritório um cartaz que dizia aos familiares dos desaparecidos na ditadura militar que "quem procura osso é cachorro".[24][262]

Vida pessoal

Casamentos e religião

Jair Bolsonaro (direita) com dois de seus filhos, o deputado federal Eduardo (esquerda) e o senador Flávio (centro).
Bolsonaro e Michelle com a filha Laura durante o desfile cívico de 7 de setembro de 2019.

Jair Bolsonaro foi casado três vezes. A primeira esposa foi Rogéria Nantes Nunes Braga,[263][264] a quem ajudou a eleger-se vereadora da capital fluminense, em 1992 e 1996, e com quem teve três filhos: Flávio (senador fluminense), Carlos (assim como o pai e mãe, vereador da cidade do Rio de Janeiro, o mais jovem do país)[264] e Eduardo. Divorciou-se e, de seu segundo casamento, com Ana Cristina Valle, teve Renan.[264]

Em 2007, conheceu sua atual esposa, Michelle de Paula Firmo Reinaldo, quando ela era secretária parlamentar na Câmara dos Deputados. Nove dias após ser contratada, os dois firmaram pacto antenupcial e, dois meses depois, casaram-se no papel.[265] Em 2013, o casal fez uma cerimônia religiosa realizada pelo pastor Silas Malafaia.[266] Com Michelle, o deputado teve a sua primeira filha, Laura.[267] A família mora no Palácio da Alvorada.[265]

Bolsonaro afirma ser católico,[268] mas alega ter frequentado a Igreja Batista por dez anos. Em 2016, foi batizado no rio Jordão por um pastor evangélico da Assembleia de Deus. A sua atual esposa, Michelle, e seus filhos são evangélicos.[269]

Genealogia

Bolsonaro é descendente de imigrantes italianos e alemães, com provável origem portuguesa mais remota também. Pelo lado materno, Bolsonaro tem ascendência integralmente italiana, e seus avós eram ambos nascidos na cidade de Luca, na Toscana. Pelo lado paterno, é bisneto de italianos do Vêneto e da Calábria, tendo também um bisavô originário de Hamburgo, na Alemanha. A grafia original do sobrenome era Bolzonaro.[36] Segundo declaração do próprio Jair Bolsonaro, seu bisavô era alemão e foi soldado da Wehrmacht de Adolf Hitler durante a Segunda Guerra Mundial: "Ele não tinha opção: ou era soldado, ou era paredão", declarou ele.[270][271] Todavia, segundo a genealogia apresentada, Carl “Carlos” Hintze, bisavô de Bolsonaro, nasceu na Alemanha por volta de 1876 e chegou ao Brasil ainda criança em 1883, cinco décadas antes do início da Segunda Guerra na Europa, portanto tinha 54 anos quando Hitler chegou ao poder e 69 anos no fim da Segunda Guerra Mundial, sem que haja nenhuma evidência que tenha deixado o Brasil nesse período. Seu bisavô alemão morreu em Campinas em 16 de março de 1969.[36][272]

Saúde

Em julho de 2020, Bolsonaro contraiu COVID-19 - ele estava então envolvido numa série de polêmicas em torno da doença, como dizer que era "uma gripezinha", que por "seu histórico de atleta [do exército]" ele não ficaria gravemente doente e por aparecer em público sem máscara. Três semanas depois do primeiro exame, os testes continuavam dando "positivo", e no final do mês, a doença havia evoluído para uma pneumonia, que ele publicamente chamou de "mofo no pulmão".[273][274]

No início de setembro de 2020, a imprensa reportou que ele passaria por um procedimento para remover cálculos renais.[275]

Condecorações

Cerimônia de entrega do Prêmio “Personalidade do Ano” pela Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos

Em 11 de fevereiro de 2019, Bolsonaro recebeu o prêmio "Personalidade do Ano de 2019", pela Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos (Brazilian-American Chamber of Commerce).[276] A condecoração foi recebida no dia 16 de maio em Dallas, Texas.[277]

Cronologia

Ver também

Notas

  1. A fotografia oficial não pode ser utilizada neste artigo, pois a Presidência da República não permite seu uso sob os termos da licença Creative Commons adotada pela Wikipédia.
  2. Oficialmente, Jair Bolsonaro é natural de Campinas.[9] Segundo seus pais, nasceu no município de Glicério e foi registrado 1º de fevereiro de 1956 em Campinas.[7][8]

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