Eleições municipais no Brasil em 2020

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Eleições municipais de 2020
Prefeituras e câmaras municipais de todos os 5.570 municípios do Brasil
15 de novembro (1° turno)
29 de novembro (2° turno)
Eleições municipais no Brasil em 2020

As eleições municipais no Brasil em 2020 ocorreram em 15 de novembro, com um segundo turno marcado para 29 de novembro em 57 municípios. Originalmente, as eleições ocorreriam em 4 de outubro (primeiro turno) e 25 de outubro (segundo turno). No entanto, com o agravamento da pandemia do novo coronavírus, as datas foram modificadas com a promulgação da Emenda Constitucional nº 107/2020.

Os eleitores escolheram os prefeitos, vice-prefeitos e vereadores dos 5.570 municípios do país. Ao todo, foram preenchidos 67,8 mil cargos públicos eletivos. Houve segundo turno em 57 dos 95 municípios que têm mais de 200 mil habitantes e nos quais, portanto, pode haver segundo turno.

Contexto

As eleições municipais de 2020 foram as primeiras após a ascensão do bolsonarismo, que levou Jair Bolsonaro a ser eleito presidente da República em 2018.[1] A ascensão do bolsonarismo foi parte da onda conservadora no país e do antipetismo, que por sua vez foi uma das consequências da crise político-econômica de 2014, iniciada no governo Dilma Rousseff e agravada no governo Temer.[2] As consequências dessa guinada à direita já se perceberam nas eleições municipais de 2016.[3] Nesse pleito, viram-se a vitória do bispo Marcelo Crivella no Rio de Janeiro e do empresário João Doria em São Paulo, bem como uma diminuição considerável de prefeitos eleitos pelo Partido dos Trabalhadores, partido que mais sofreu desgaste devido à crise política, embora não fosse o único a estar envolvido nela.[4][5]

Mesa do Senado Federal durante a promulgação da EC 107 em julho. No centro, o presidente do Senado Federal, Davi Alcolumbre; à sua esquerda, Luís Roberto Barroso, presidente do TSE

No primeiro semestre de 2020, as eleições passaram a ter como tema central a pandemia de SARS-CoV-2 (causador da COVID-19), levando a Justiça Eleitoral, os partidos e políticos a remodelarem seu planejamento para o processo eleitoral.[6][7] Em maio, com dificuldade em controlar a pandemia,[8] o Congresso adiou as eleições municipais com a promulgação da PEC 18/2020, originando a Emenda Constitucional 107. O primeiro turno foi marcado para o dia 15 de novembro e, o segundo, para o dia 29 de novembro. Inicialmente, previa-se que seriam realizados em 4 e 25 de outubro, respectivamente. Além disso, outras datas relevantes para o calendário eleitoral foram postergadas.[9][10]

Além disso, a partir deste pleito será colocada em prática a Emenda Constitucional 97/2017, que proíbe a celebração de coligações partidárias para as eleições legislativas, o que pode gerar um inchaço de candidatos ao legislativo.[11] Deste modo, o país poderia ultrapassar a marca de um milhão de candidatos a prefeito, vice-prefeito e vereador neste escrutínio.[12] Com a pandemia, também se especulou a possibilidade de os candidatos dependerem ainda mais da internet para a propaganda eleitoral, em vez de "santinhos" e outros materiais físicos de campanha.[13]

Processo eleitoral

Os 5.570 municípios do país elegem seus representantes locais a cada quatro anos, por meio do sufrágio universal e pelo voto direto e secreto.[14][15] O voto é obrigatório, sendo facultativo para maiores de 16 anos e menores de 18 anos, maiores de 70 anos e os analfabetos.[16] O processo eleitoral é gerido pela Justiça Eleitoral, com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) no topo da hierarquia.[17] Em 2020, 67,8 mil cargos seriam preenchidos pelas eleições municipais, sendo 5.570 prefeitos, 5.570 vice-prefeitos e 56,6 mil vereadores.[18] Os vereadores constituem as Câmaras Municipais, responsáveis pelo exercício do Poder Legislativo no âmbito municipal,[19] e são eleitos através do voto proporcional em lista aberta.[20] O número de vereadores é fixado de acordo com a quantidade de habitantes, variando de 9 representantes para os municípios menores a 55 vereadores em São Paulo, a cidade mais populosa do país.[21][22]

Eleitora com máscara deixando a cabine de votação no Ceará no primeiro turno da eleição

A votação do primeiro turno foi marcada para 15 de novembro, em todos os municípios do país. Nas 95 cidades com mais de 200 mil eleitores, um segundo turno foi programado para 29 de novembro se nenhum candidato receber 50% + 1 dos votos na primeira etapa da votação.[23][24] O horário eleitoral no rádio e na televisão duraria 35 dias no primeiro turno e 9 dias no segundo: de 9 de outubro a 12 de novembro, e de 20 de novembro a 28 de novembro. O início da propaganda na internet foi marcado para 27 de setembro, juntamente com o início da campanha em si.[25] O impulsionamento de conteúdo eleitoral por candidatos e partidos na internet foi autorizado.[26]

O limite de gastos em cada município foi determinado pelo TSE, que atualizou monetariamente os valores da eleição anterior.[27] Na cidade menos populosa, Serra da Saudade,[28] os postulantes ao executivo poderiam gastar 123 mil reais e, ao legislativo, 12,3 mil. Em São Paulo, candidatos à prefeitura poderiam gastar até 51,7 milhões no primeiro turno e 20,7 milhões no segundo, enquanto candidatos à vereança tinham teto de 3,6 milhões.[29] Os candidatos poderiam legalmente financiar suas campanhas por meio de três formas:[30] do autofinanciamento, limitado a até 10% do valor máximo a ser gasto;[31] de um fundo eleitoral, de 2,034 bilhões, dividido para 33 partidos políticos na maior parte conforme o número de deputados federais e senadores eleitos por eles nas eleições gerais de 2018;[32] e por doações de pessoas físicas.[33]

As principais datas para a eleição municipal foram listadas abaixo:

Calendário eleitoral[34][35]
31 de agosto a 16 de setembro Período para a realização das convenções partidárias
26 de setembro Data limite para o registro de candidaturas
27 de setembro Início da propaganda eleitoral
15 de novembro* Votação do primeiro turno
29 de novembro* Votação do segundo turno
Até 15 de dezembro Data limite para prestação de contas à Justiça Eleitoral
Até 18 de dezembro Data limite para diplomação dos eleitos

* Devido ao apagão no Amapá, o primeiro e o segundo turno na cidade de Macapá estão previstos para ocorrer nos dias 6 e 20 de dezembro, respectivamente.[36]

Mudanças em relação à eleição anterior

Com a reforma eleitoral promovida em 2017, as regras para escolha dos vereadores sofreu mais uma grande modificação em relação ao pleito anterior: a partir da eleição de 2020 deixaram de ser aceitas as coligações para tais cargos, a chamada "eleição proporcional". Em face disto, cada candidato somente poderia ter seu quociente eleitoral calculado dentro do próprio partido ao qual está inscrito, independentemente se o mesmo participe de coligação para a "eleição majoritária" (de prefeito).[37] Desta forma, considera-se que as vagas do legislativo pertençam ao partido, e não mais à coligação.[37]

Candidaturas

Candidaturas nas últimas eleições municipais
Ano Executivo Legislativo
2020 19.347 518.328
2016 16.565 463.372
2012 15.791 449.791
2008 15.617 349.767
2004 16.127 369.024
Fonte: Tribunal Superior Eleitoral[38]

O prazo para que os partidos apresentassem os pedidos de registro das candidaturas se encerrou em 26 de setembro. A partir desta data, as solicitações foram encaminhadas para a Justiça Eleitoral, responsável por julgar seu deferimento. Os requisitos de elegibilidade incluíam a nacionalidade brasileira, o pleno exercício dos direitos políticos, a filiação partidária e a idade mínima, de 18 anos para candidatos à vereança e 21 anos para postulantes ao executivo municipal.[39][40]

A Justiça Eleitoral informa as candidaturas registradas através do Sistema de Divulgação de Candidaturas (DivulgaCand). Nele, dentre os dados divulgados, estão: identificação básica (como nome, data de nascimento, naturalidade, cor e grau de instrução), partido político, número eleitoral, situação do registro de candidatura, declaração de bens, certidões criminais e sítios eletrônicos, incluindo as redes sociais.[41]

O ano de 2020 marca a entrada da Geração Z na disputa eleitoral, com o grupo mais jovem estando entre 18 e 20 anos[42], o aumento do número de candidaturas de sacerdotes religiosos[43] e a multiplicação de candidatos que se apresentam armados e a favor do armamentismo.[44]

Resultados

Atraso na divulgação dos resultados e tentativas de ataques

Barroso em coletiva de imprensa no dia do primeiro turno

A divulgação dos resultados foi mais demorada do que nas eleições anteriores. De acordo com Roberto Barroso, presidente do Tribunal Superior Eleitoral, a relativa demora foi consequência de uma mudança na forma de totalização dos resultados, que passou a ser centralizada no TSE e não mais nos Tribunais Regionais Eleitorais (TREs). Ademais, um supercomputador do tribunal apresentou falhas e o sistema sofreu inúmeras tentativas de ataques cibernéticos, que não foram exitosos e não comprometeram a integridade das eleições.[45][46][47]

Em 16 de novembro, Barroso afirmou que existiam indícios de que os ataques haviam sido coordenados, declarando: "Há suspeitas de articulação de grupos extremistas que se empenham em desacreditar as instituições, clamam pela volta da ditadura e muitos deles são investigados pelo STF."[48]

Segundo turno

Uma nova votação foi necessária em 57 cidades dos 95 municípios que poderiam ter segundo turno, incluindo São Paulo e Rio de Janeiro, as maiores do país.[49]

Gênero dos eleitos

Houve um ligeiro aumento no número de mulheres eleitas prefeitas e vereadoras. No pleito anterior, as mulheres representavam 11,7% dos escolhidos para liderar o executivo, quantidade que aumentou para 12% em 2020. O número de vereadoras cresceu de 13,5% pata 16% no mesmo período. Os eleitores de 948 cidades não elegeram nenhuma mulher para a Câmara Municipal, enquanto os de 1.185 cidades escolheram apenas uma mulher como vereadora.[50][51]

Apoio do presidente Bolsonaro

Inicialmente, o presidente Jair Bolsonaro indicou que não tinha intenção de intervir diretamente nas eleições, embora admitiu que poderia manifestar apoio a alguns candidatos durante o segundo turno.[52][53] Porém, Bolsonaro apoiou candidatos pouco antes do dia da votação em primeiro turno por meio de lives na internet. Seu apoio, contudo, não se mostrou eficaz, eis que a maioria desses candidatos não conseguiu se eleger.[54]

Tabela dos resultados

Partidos Votos[nota 1] Prefeitos[55] Vereadores[56]
Votos % ±% Total +/- Total +/-
Movimento Democrático Brasileiro (MDB) 774 7.335 -225
Progressistas (PP) 681 6.346 +1.603
Partido Social Democrático (PSD) 650 5.694 +1.044
Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) 512 4.377 -987
Democratas (DEM) 459 4.341 +1.436
Partido Liberal (PL) 342 3.467 +448
Partido Democrático Trabalhista (PDT) 311 3.441 -329
Partido Socialista Brasileiro (PSB) 250 3.029 -606
Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) 212 2.474 -590
Republicanos 208 2.601 +980
Partido dos Trabalhadores (PT) 179 2.665 -150
Cidadania 139 1.585 -92
Partido Social Cristão (PSC) 115 1.510 -18
Podemos (PODE) 96 1.528 -114
Solidariedade (SD) 93 1.348 -90
Partido Social Liberal (PSL) 90 1.205 +327
Avante 79 1.054 +565
Patriota 48 719 -420
Partido Verde (PV) 47 805 -717
Partido Comunista do Brasil (PCdoB) 46 694 -427
Partido Republicano da Ordem Social (PROS) 39 754 -233
Partido da Mobilização Nacional (PMN) 13 200 -326
Partido Renovador Trabalhista Brasileiro (PRTB) 6 220 -171
Rede Sustentabilidade (REDE) 5 144 -36
Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) 4 89 +33
Partido Trabalhista Cristão (PTC) 1 220 -353
Democracia Cristã (DC) 1 123 -296
Partido da Mulher Brasileira (PMB) 1 46 -170
Partido Novo (NOVO) 0 29 +25
Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU) 0 0 Estável
Partido Comunista Brasileiro (PCB) 0 0 Estável
Partido da Causa Operária (PCO) 0 0 Estável
Unidade Popular (UP) 0 0 Estável
Votos válidos 100% 5.570 56.810
Votos em branco
Votos nulos
Total
Abstenções
Eleitores

Eleições nas capitais

Capital Estado Prefeito Partido Vice-prefeito Eleito no
Aracaju Sergipe
Belém Pará
Belo Horizonte Minas Gerais Alexandre Kalil PSD Fuad Norman 1º turno
Boa Vista Roraima
Bandeira de Campo Grande.svg Campo Grande Mato Grosso do Sul Marquinhos Trad PSD Adriane Lopes 1º turno
Cuiabá Mato Grosso
Curitiba Paraná Rafael Greca DEM Eduardo Pimentel 1º turno
Florianópolis Santa Catarina Gean Loureiro DEM Topázio Neto 1º turno
Fortaleza Ceará
Goiânia Goiás
João Pessoa Paraíba
Macapá Amapá
Maceió Alagoas
Manaus Amazonas
 Natal Rio Grande do Norte Álvaro Dias PSDB Aíla Cortez 1º turno
Palmas Tocantins Cinthia Ribeiro PSDB Lucas Meira 1º turno
Porto Alegre Rio Grande do Sul
Porto Velho Rondônia
Recife Pernambuco
Rio Branco Acre
Rio de Janeiro Rio de Janeiro
 Salvador Bahia Bruno Reis DEM Ana Paula Matos 1º turno
São Luís Maranhão
São Paulo São Paulo
Teresina Piauí
Bandeira de Vitória.svg Vitória Espírito Santo

Notas

  1. Relativo às eleições dos executivos municipais no primeiro turno

Referências

  1. «"Efeito Bolsonaro? Saiba quem são os pré-candidatos a prefeito nas capitais». Gazeta do Povo. 25 de fevereiro de 2020. Consultado em 16 de setembro de 2020 
  2. Iraheta, Diego (8 de outubro de 2018). «Como o Brasil virou à direita». HuffPost Brasil 
  3. «Segundo turno confirma guinada à direita e conservadora». Consultado em 17 de janeiro de 2017 
  4. Junqueira, Diego. «Partido com mais investigados na Lava Jato tem alta no número de prefeitos». noticias.r7.com. R7. Consultado em 31 de outubro de 2016 
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Ligações externas

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