Ângela Diniz

Ângela Diniz
Nascimento 10 de novembro de 1944
Belo Horizonte, Curvelo
Morte 30 de dezembro de 1976 (32 anos)
Armação dos Búzios
Cidadania Brasil
Ocupação socialite

Ângela Maria Fernandes Diniz (Curvelo ou Belo Horizonte,[nota 1] 10 de novembro de 1944Armação dos Búzios, 30 de dezembro de 1976) foi uma socialite brasileira assassinada em uma casa na Praia dos Ossos, em Armação dos Búzios, no estado do Rio de Janeiro, pelo seu companheiro, Doca Street (Raul Fernando do Amaral Street 1934-2020[1]). O julgamento de Doca Street foi amplamente divulgado pela mídia[2][3][4] e teve como foco a moral sexual feminina. O assassino foi condenado a dois anos de prisão com sursis e imediatamente solto. A decisão judicial gerou um amplo movimento de protesto feminista, sob o lema "quem ama não mata", ocasionando um novo julgamento, quando Doca Street foi condenado a quinze anos de prisão.[5] O evento é considerado um marco na história do feminismo no Brasil.[6]

Biografia

Ângela Diniz era filha de Newton Viana Diniz e Maria do Espírito Santo Fernandes Diniz. Casou-se aos 17 anos com o engenheiro Milton Villas Boas, 31 anos, com quem teve três filhos. O relacionamento durou apenas 9 anos e, quando terminou, o casal fez um acordo judicial de desquite, já que o divórcio não era permitido à época. No acordo, Ângela recebeu uma pensão mensal e uma mansão em Belo Horizonte, porém, a guarda dos três filhos ficou com Milton.[7][8]

Em junho de 1973, José Avelino dos Santos (vulgo Zé Pretinho), então caseiro e vigia da casa de Ângela, foi assassinado à noite com um tiro no rosto. O corpo foi encontrado no lado de fora da casa, próximo à janela, e tinha uma faca na mão e a braguilha aberta com sinais de ejaculação. Inicialmente, Ângela assumiu a culpa, alegando legítima defesa. Entretanto, as investigações demonstraram que havia uma terceira pessoa na casa, e descobriu-se que Ângela era amante do milionário mineiro Arthur Vale Mendes, conhecido como Tuca Mendes, herdeiro do grupo Mendes Júnior.[8][2] No depoimento, Ângela disse que teria assumido a culpa para proteger Tuca, pois ele era casado e o relacionamento dos dois ainda não era de conhecimento geral. Tuca alegou que havia visto um vulto do lado de fora da casa, foi verificar o que era e a pessoa o atacou, por isso ele reagiu, matando-o.[8] As circunstâncias reais do crime jamais foram esclarecidas. À época, surgiram boatos que Ângela e José Avelino teriam um relacionamento, Tuca descobriu e matou-o[2] Porém, pessoas próximas a Ângela negaram o caso, afirmando que ela seria racista demais para se relacionar com um negro.[9] Outra hipótese é que Tuca teria encontrado José Avelino se masturbando escondido do lado de fora da casa, observando Ângela, e matou-o. Ao final, Tuca Mendes foi condenado a dois anos com sursis, isto é, com suspensão condicional da pena e liberado.[2]

Devido ao escândalo causado pelo crime, Ângela e Tuca se separaram, e ela decidiu afastar-se de Minas Gerais e mudou-se para o Rio de Janeiro. Na capital carioca, conheceu o colunista social Ibrahim Sued,[10] com quem teve um breve relacionamento, e que a apelidou de "Pantera de Minas".[7]

No Natal de 1974, Ângela visitou seus filhos em Belo Horizonte, e ao retornar ao Rio de Janeiro, decidiu trazer consigo sua filha, sem avisar a família do seu ex-marido. Milton Villas Boas deu queixa de sequestro. Mesmo Ângela retornando a menina a Belo Horizonte uma semana depois, Milton manteve o processo e Ângela foi condenada a seis meses de prisão pelo sequestro da sua filha.[7]

Em 1975, por meio de uma denúncia anônima, Ângela foi presa sob a acusação de esconder mais de cem gramas de maconha em sua residência. Para poder responder ao processo em liberdade, ela admitiu ser viciada em drogas.[2][7]

O crime

Ângela e Doca namoraram por quatro meses, mas a relação foi marcada por ciúmes e violência doméstica.[11][12] Doca havia abandonado sua esposa e filhos para morar com Ângela, e em dezembro de 1976, ambos estavam veraneando na Praia dos Ossos, em Búzios, em busca de sossego das colunas sociais.[7]

Na noite do dia 30 de dezembro de 1976, Ângela e Doca tiveram uma discussão e ele saiu de casa. Um tempo depois, ele retornou, houve uma nova briga e Doca assassinou a namorada com três tiros no rosto e um na nuca com uma pistola Beretta.[3][13]

Após o homicídio, Doca fugiu e permaneceu semanas foragido. Chegou a dar entrevistas para a TV Globo e para revista Manchete, antes de se entregar a polícia em 18 de janeiro de 1977.[3]

O primeiro julgamento

Doca Street foi julgado em 1979 em Cabo Frio, sendo defendido pelo advogado Evandro Lins e Silva. A defesa foi baseada na tese de legítima defesa da honra, responsabilizando-se a vítima por ter provocado tal violência, em razão do próprio comportamento.[5] Na acusação, a família de Ângela contratou o advogado Evaristo de Moraes Filho para atuar como assistente de acusação.[5][14]

Durante o julgamento, se examinou amplamente a vida de Ângela, questionando sua moralidade sexual, seu envolvimentos com outros crimes, e sua dependência de drogas.[3] O julgamento foi extensamente coberto pela mídia, sendo que só o grupo Globo levou uma equipe de 68 pessoas entre técnicos e repórteres.[15]

O tribunal do júri condenou Doca Street por cinco votos a dois a uma pena de 18 meses pelo crime e seis meses por ter fugido da justiça, com direito à sursis. Por já ter cumprido sete meses preso, ou seja, um terço da pena, Doca foi liberado e pode sair livre do tribunal.[3][5]

O movimento feminista

A escandalosa decisão a favor do assassino de Ângela Diniz produziu o primeiro de uma série de movimentos feministas de protesto contra a violência doméstica e o feminicídio, sob o lema "quem ama não mata", slogan tomado como resposta da argumentação da defesa da Doca Street de que ele "matou por amor".[16][6] A pressão do movimento feminista levou a um novo julgamento de Doca Street.

O segundo julgamento

Em 1981, Doca Street foi submetido a um novo julgamento e condenado a 15 anos de prisão.[14] O julgamento foi acompanhado pessoalmente por ativistas feministas, que organizaram uma vigília e exigiram sentença e prisão para o assassino, explodindo em aplausos quando a sentença foi anunciada.[6] Enquanto que no primeiro julgamento havia predominado uma cobertura machista da mídia a partir da vida sexual da vítima,[2][3] já no segundo julgamento, a pressão do movimento feminista impôs um quadro de sentido baseado no próprio assassinato e na invalidade do argumento emocional para justificá-lo.[6]

Na mídia

A vida de Ângela chegou a ser cogitada como tema de um filme. Seria dirigido por Roberto Farias, e teria Deborah Secco como protagonista.[17] Entretanto o filme nunca foi realizado.

O programa Linha Direta, da Rede Globo, fez a reconstituição do crime e do julgamento no episódio Ângela e Doca.[18]

Em 2006, Doca Street lançou o livro Mea Culpa onde trata o caso com profundidade e dá sua versão aos fatos.[19][4]

Outro livro que descreveu, em parte, a história da socialite, é Mulher Livre de Adelaide Carraro.[20]

Em setembro de 2020, a Rádio Novelo lançou o podcast Praia dos Ossos, onde reconstitui o crime e tenta entender "como uma mulher desarmada é morta por quatro tiros e vira a vilã da história?".[21]

Notas

  1. O local de nascimento da biografada apresenta fontes para as duas cidades, conforme debate em Discussão:Ângela Diniz#Local de nascimento.

Referências

  1. Doca Street, assassino de Ângela Diniz, morre aos 86 anos em São Paulo - Raul Fernando do Amaral Street nasceu em 5 de dezembro de 1934, em São Paulo Finanças Yahoo - acessado em 18 de dezembro de 2020
  2. a b c d e f Revista Anagrama: Revista Científica Interdisciplinar da Graduação. «Lugar de Fala, Enquadramento e Valores no Caso Ângela Diniz» (PDF). Consultado em 16 de setembro de 2020 
  3. a b c d e f «Doca vai, mata e vence». Veja. 24 de Outubro de 1979. Consultado em 6 de Outubro de 2020 
  4. a b Jonas Furtado. «"Penso em Ângela todos os dias"». Isto É Gente, Editora Três. Consultado em 6 de dezembro de 2010 
  5. a b c d «O Caso Doca Street». OAB SP 
  6. a b c d Grossi, Miriam Pillar (Novembro de 1993). «De Ângela Diniz a Daniela Perez: a trajetória da impunidade». Estudos Feministas. Consultado em 5 de Outubro de 2020 
  7. a b c d e Sued, Ibrahim (5 de Janeiro de 1977). «A Imagem de Ângela Diniz». O Globo. Consultado em 6 de Outubro de 2020 
  8. a b c «A Pantera de Belô» 1106 ed. Manchete. 1973. Consultado em 6 de Outubro de 2020 
  9. «Episódio 4 - Três crimes» (PDF). Rádio Novelo. Consultado em 6 de Outubro de 2020 
  10. Última viagem de amor - Veja, 12 de janeiro de 1977, págs. 34 a 37.[ligação inativa]
  11. «Época - EDG ARTIGO IMPRIMIR - "Não matei por amor"». revistaepoca.globo.com. Consultado em 20 de março de 2018 
  12. Studart, Heloneida (1977). «O Mundo em que Ângela Diniz viveu» 1297 ed. Manchete 
  13. «Caso Doca Street». Isto É Gente. Consultado em 3 de abril de 2016 
  14. a b «Os processos que fizeram história no Brasil». Consultor Jurídico 
  15. «Episódio 2 - O Julgamento» (PDF). Rádio Novelo. Consultado em 6 de outubro de 2020 
  16. «Quem ama não mata, 40 anos depois». www.geledes.org.br. Consultado em 20 de março de 2018 
  17. «Deborah Secco vive Ângela Diniz no cinema». CineClick. 21 de agosto de 2002. Consultado em 7 de dezembro de 2010 
  18. «Linha Direta Justiça». Rede Globo. Consultado em 6 de Outubro de 2020 
  19. Angélica Santa Cruz (1 de setembro de 2006). «Perdoe-me, Ângela, diz Doca Street». O Estado de S. Paulo. Consultado em 7 de dezembro de 2010. Arquivado do original em 10 de novembro de 2010 
  20. Adelaide Carraro e as representações do erótico Universidade estadual de Londrina - acessado em 8 de outubro de 2020
  21. «O crime da Praia dos Ossos | Episódio 1». www.radionovelo.com.br. Rádio Novelo. Consultado em 15 de setembro de 2020 

Em formação

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